
Se você frequenta livrarias com certeza percebeu que de uns tempos para cá a nova moda é escrever livros de romance com vampiros, moda essa iniciada pela autora Anna Rice e que voltou à tona com Stephanie Mayers e seu livro “O Crepúsculo”.
Mas no dia 15 de agosto chegou às livrarias brasileiras o livro “Noturno”, a primeira investida do diretor Guillermo Del Toro na literatura que promete tirar os vampiros das histórias de amor e por eles de volta no gênero o qual eles sempre pertenceram: O Terror.
O cineasta mexicano Guillermo Del toro é mais conhecido pelos seus filmes de horror fantástico como “A Espinha do Diabo” e “O Labirinto do Fauno”. Inicialmente, ele concebera o projeto como uma série para TV. Ao apresentar a história para a FOX os executivos recusaram sua proposta e pediram para que ele transformasse sua sanguinolenta versão em uma comédia.
No lugar de satisfazer os produtores do estúdio, Del Toro contratou Chuck Hogan (autor do Best Seller Prince of Thieves) como co-escritor para ajudá-lo a adaptar sua versão para TV em um romance. Os dois conseguiram se dar bem em uma parceria descrita como “promiscua, um caso lindo” pelo diretor. O escritor o ajudou a fortalecer seus diálogos e dar mais recheio a trama enquanto Del Toro mantinha seus compromissos com seus filmes. A Hogan também coube a parte de dar um foco maior no realismo da obra, já que em seus últimos trabalhos Guillermo tem lidado mais com mundo fantásticos passando longe do tom mais pé no chão que a trama exigia.

Guillermo Del Toro e Chuck Hogan
Mas mesmo assim, a obra segue uma linha narrativa típica de um Blockbuster de Holywood, diferente de livros de horror do Stephen King como A Coisa e a Dança da Morte, que narram a história fugindo de lugares comuns da literatura. No final, fica-se a impressão de que a obra pode ser transporta diretamente para um longa-metragem.
A história

“Crime e terror são gêneros de existencialismo e eu sou fã de histórias de pessoas no seu limite, de pessoas que se encontram testadas, atormentadas e assustadas.” (Chuck Hogan)
Um dia antes de um eclipse solar, um avião aterrisa misteriosamente no aeroporto JFK, em Nova York, com todos os seus passageiros mortos e um antigo caixão em seu bagageiro. Uma clara homenagem ao clássico Drácula, de Bram Stoker.
Logo em seguida Descobrem-se meia dúzia de sobreviventes, restos de dejectos numa cabina e os corpos desaparecem misteriosamente da nave. Daí em diante a trama segue a vida de um doutor do centro de controle de doenças que acredita que tudo não passa de um vírus e pouco a pouco ele é introduzido a uma nova palavra que começa com v muito mais mortal do que a que ele está acostumado: vampiros.
Os autores lidam com grande intimidade com as ruas de Nova York. Muitos bairros periféricos são usadas com os diversos tipos de moradores de todas nacionalidades que habitam na cidade. Outra grande liberdade que o autor toma é usar o Marco Zero, local onde ficavam localizadas as Torres Gêmeas do World Trade Center, como parte do cenário da trama. A escolha por pontos conhecidos situa melhor o leitor em um ambiente que ele conheça bem, adicionando ai suas criaturas em um ambiente seguro.

Ground Zero: O local aonde ficava o WTC
O terrorismo está no inconsciente dos personagens da obra, que, assim como no filme “Guerra dos Mundos”, do Steven Spielberg, Logo que o avião pousa com todos passageiros mortos, muitos dos personagens lidam com o assunto com medo de que tudo não passe de um ataque terrorista.
Em entrevista Del Toro disse: “Eu acredito no homem. Eu acredito na humanidade, como o pior e o melhor que aconteceu nesse mundo”. E o livro trata com os diversos tipos de horror que o homem gera. Desde o holocausto até o desastre das Duas Torres. As personagens de Del Toro foram humanizadas para o pior até. Os personagens secundários da obra são mesquinhos, detestáveis, o que os deixa um tanto quanto reais. Motivos esses que não existe sentimento de pena por eles quando eles vão sendo pouco a pouco caçados pelas criaturas da noite.
Mas as excentricidades típicas do diretor não ficam de fora. A loja de penhores de Setrakian é um típico cenário “Del Toriano” descrito com seus diversos elementos inusitados e diferentes que compõe um mosaico de referências, assim como o mercado de HellBoy 2.
Os Vampiros de Del Toro

“Esqueça a capa, os caninos e o sotaque engraçado” (Setrakian)
Em entrevista para TIME, Guillermo disse: “Guillermo disse: “Quando eu era um garoto, meu pai me deu duas enciclopédias, uma de arte outra médica. Eu lia as duas juntas e, naquela idade, as idéias de arte, misturada com biologia e anatomia, se fundiram em uma para mim. Ai, alguém me disse que o melhor jeito para se acreditar em monstros era encontra o corpo deles, que, se você visse sua carcaça seria uma prova real que eles existem. Então eu tenho meio que fabricado essa biologia como uma forma das pessoas acreditarem em monstros”.
Assim, como era de se esperar, a obra trata muito detalhadamente da transformação das criaturas e mostra bem o lado visceral dos monstros. Em muitos momentos da obra figura clássica e romantizada do vampiro é ironizada e antagonizada com os monstros mais atualizados, como se fossem vítimas de uma doença. Os vampiros de Noturno estão mais para os mortos-vivos de Romero do que para os galãs sedutores de Meyers e Rice.
O livro literalmente disseca os monstros para que possamos entender como eles funcionam desde seus órgãos internos e como eles lidam entre si. Existe uma preocupação para que os monstros sejam o mais real possível. Até mesmo a percepção de mundo dos monstros é explorada com uma exposição de como funcionam seus cinco sentidos. O contraponto da ciência e a fé estão em muitas sequências, deixando em dúvida se os monstros são obras sobrenaturais ou simplesmente pessoas com um vírus. Até mesmo os tão famosos caninos são substituídos por uma mais verossímil mistura de língua e ferrão.
A Cultura Pop na história
Cada vez mais Guillermo Del Toro se adentra mais no panteão dos grandes criadores da cultura Pop. Sempre inspirado por grandes obras, com pequenas referências e muitas citações, novamente ele encontrou para mostrar um pouco de seus conhecimentos.
A bengala com cabeça de lobo é uma referência claro ao clássico filme Lobisomem (WolfMan) e já foi até utilizada no livro “A Tempestade do Século”, de Stephen King. Outra sacada ligada ao mestre dos livros de terror é que em certo momento em que o vírus começa a se espalhar em Nova York uma pessoa se pergunta se aquela doença é a tal gripe misteriosa. Não acredito que seja uma referência à gripe suína, já que na época que o livro estava sendo escrito ela não estava em voga, mas sim à Captain Trips, doença do livro Dança da Morte, do King, que tem uma parte passada na grande maçã.
Em algumas passagens temos até referâncias a ídolos pops atuais como Hannah Montana, Justin Timberlake e a o filme Pequena Sereia da Diseny. O que mostra a despreocupação do livro de ser atemporal, o que acaba por fazer como que daqui uns 10 anos eles seja uma publicação bem datada.
Chuck Hogan diz que se baseou em muitas coisas do que lia na revista Fangoria, uma das referências do gênero terror no EUA. Já Guillermo se baseou nas histórias de vampiro que leu e colecionou em sua infância misturando ali alguns conceitos mais modernos de séries como C.S.I. para criar uma história moderna com ação e muito sangue.

Ninguém cria monstros como Del Toro
Talvez a maior crítica em torno da obra é a forma como ela foi vendida. Embalada na onda de vampiros do Crepusculo e para ganhar uma fatia de mercado a mais, os marketeiros revelaram o principal segredo do livro, afinal na obra, demora certo tempo até que você descubra do que se trata o tipo de vírus que assola Nova York.
Já para os fãs do diretor não tem como não assimilar parte da história com a trama de Blade 2. Muitos aspectos são similares nas duas, como vampiros mais viscerais sendo os “peões” (como os morlocks da Máquina do Tempo) de outros sugadores de sangue de uma classe mais alta. Ou o fato do vampirismo ser tratado como uma doença como no filme. Ainda por cima no final fica uma referêmcioa à um “caçador da luz” que para qualquer um que já viu um dos filmes da triologia vai entender. Fica a impressão que essa história é apenas uma versão mais acurada do trama de Blade 2 sem que se precisasse focar no personagem de Wesley Snipes.
Guillermo, fascinado por fãs desde que era criança, espera reinventar o gênero de vampiros com Noturno e suas continuações: The Fall (2010) e Night Eternal (2011). Além do mais, ele acredita que o livro nunca vá ser adaptado para uma filme, mas talvez para um mini-série de TV a cabo. O livro é uma boa pedida para os fãs de terror, mas só resta esperar para que as continuações mantenham a mesma qualidade e se arrisquem a fugir mais do perfil Blockbuster que ficou tão impresso nesta primeira parte.
Noturno, de Chuck Hogan e Guilhermo Del Toro, é a primeira parte da Triologia da Escuridão, um lançamento da editora Rocco e custa entre quarenta e cinquenta reais.